Aos poucos as coisas vão aparecendo.
Posso criar um símbolo hoje, e dar significado para ele amanhã. Qual o mal nisso?
Misturar Freud e Hakim Bey é interessante. Poderia ter jogado um pouco de Jung aqui, pra misturar ainda mais as coisas. Mas elas já estão misturadas o bastante.
Estou escrevendo esta introdução depois de ter transcrito os trechos abaixo. Não sei muito bem o que dizer, pois os trechos falam por si só.
As interpretações são livres, e são muitas.
Uma questão que surgiu nas minhas mentes: "O agrupamento arquetípico alcança melhores resultados se formado a partir das leis Gestalticas?"
Aí eu respondo para mim mesmo: "Depende dos resultados que se quer alcançar com o grupo".
É uma coisa a se pesquisar.
"Cada indivíduo partilha de numerosas mentes grupais - as de sua raça, classe, credo, nacionalidade, etc. - podendo também elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Essas formações grupais estáveis e duradouras, com seus efeitos constantes e uniformes, são menos notáveis para um observador que os grupos rapidamente formados e transitórios a partir dos quais Le Bon traçou seu brilhante esboço psicológico do caráter da mente grupal. E é exatamente nesses ruidosos grupos efêmeros, superpostos uns aos outros, por assim dizer, que encontramos o prodígio do desaparecimento completo, embora apenas temporário, exatamente daquilo que identificamos como aquisições individuais.
Interpretamos esse prodígio com a significação de que o indivíduo abandona seu ideal do ego e o substitui pelo ideal do grupo, tal como é corporificado no líder. E temos de acrescentar, a título de correção, que o prodígio não é igualmente grande em todos os casos. Em muitos indivíduos, a separação entre o ego e o ideal do ego não se acha muito avançada e os dois ainda coincidem facilmente; o ego amiúde preservou sua primitiva autocomplacência narcisista. A seleção do líder é muitíssimo facilitada por essa circunstância. Com frequência precisa apenas possuir as qualidades típicas dos indivíduos interessados sob a forma pura, clara e particularmente acentuada, necessitando somente fornecer uma impressão de maior força e de mais liberdade de libido. Nesse caso, a necessidade de um chefe forte frequentemente o encontrará a meio caminho, e o investirá de uma predominância que de outro modo talvez não pudesse reivindicar. Os outros membros do grupo, cujo ideal do ego, salvo isso, não haveria se corporificado em sua pessoa sem alguma correção, são então arrastados com os demais por 'sugestão', isto é, por meio da identificação".
Psicologia das Massas e a Análise do Eu - Sigmund Freud
"Como é que o mundo "virado-de-cabeça-para-baixo" sempre acaba se endireitando? Por quê, como estações no inferno, após a revolução sempre vem uma reação?
Levante e Insurreição são palavras usadas pelos historiadores para caracterizar revoluções que fracassaram - movimentos que não chegaram a terminar seu ciclo, a trajetória padrão: revolução, reação, traição, a fundação de um Estado mais forte e ainda mais opressivo -, a volta completa, o Eterno Retorno da história, uma e outra vez mais, até o ápice: botas marchando eternamente sobre o rosto da humanidade.
Ao falhar em completar esta trajetória, o levante sugere a possibilidade de um movimento fora e além da espiral hegeliana do "progresso", que secretamente não passa de um ciclo vicioso. Surgo: levante, revolta. Insurgo: rebelar-se, levantar-se. Uma ação de independência. Um adeus a essa miserável paródia da roda kármica, histórica futilidade revolucionária. O slogan "Revolução!" transformou-se de sinal de alerta em toxina, uma maligna e pseudo-gnóstica armadilha-do-destino, um pesadelo no qual, não importa o quanto lutamos, nunca nos livramos do maligno ciclo infinito que incuba o Estado, um Estado após o outro, cada "paraíso" governado por um anjo ainda mais cruel.
(...)
A História diz que uma Revolução conquista "permanência", ou pelo menos alguma duração, enquanto o levante é "temporário". Nesse sentido, um levante é uma 'experiência de pico' se comparada ao padrão 'normal' de consciência e experiência. Como os festivais, os levantes não podem acontecer todos os dias - ou não seriam 'extraordinários'. Mas tais momentos de intensidade moldam e dão sentido a toda uma vida. O xamã retorna - uma pessoa não pode ficar no telhado para sempre - mas algo mudou, trocas e integrações ocorreram - foi feita uma diferença.
Poderia se dizer que essa é uma postura de desespero. O que foi feito do sonho anarquista, do fim do Estado, da comuna, da zona autônoma com duração, da sociedade livre, da cultura livre? Devemos abandonar esta esperança em troca de um acte gratuit existencialista? A idéia não é mudar a consciência, mas mudar o mundo.
(...)
Em resumo, não queremos dizer que a TAZ é um fim em si mesmo, substituindo todas as outras formas de organização, táticas e objetivos. Nós a recomendamos porque ela pode fornecer a qualidade do enlevamento associado ao levante sem necessariamente levar à violência e ao martírio. A TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la.
(...)
Em suma, uma postura realista exige não apenas que desistamos de esperar pela 'Revolução', mas também que desistamos de desejá-la.
'Levantes', sim - sempre que possível, até mesmo com o risco de violência. Os espasmos do Estado Simulado serão 'espetaculares', mas na maioria dos casos a tática mais radical será a recusa de participar da violência espetacular, retirar-se da área de simulação, desaparecer.
(...)
A TAZ é um acampamento de guerrilheiros ontologistas: ataque e fuja. Continue movendo a tribo inteira, mesmo que ela seja apenas dados na web. A TAZ deve ser capaz de se defender; mas, se possível, tanto o 'ataque' quanto a 'defesa' devem evadir a violência do Estado, que já não é uma violência com sentido. O ataque é feito às estruturas de controle, essencialmente às idéias. As táticas de defesa são a 'invisibilidade', que é uma arte marcial, e a 'invulnerabilidade', uma arte 'oculta' dentro das artes marciais. A 'máquina de guerra nômade' conquista sem ser notada e se move antes do mapa ser retificado. Quanto ao futuro, apenas o autônomo pode planejar a autonomia, organizar-se para ela, criá-la. E uma ação conduzida por esforço próprio. O primeiro passo se assemelha a um satori - a constatação de que a TAZ começa com um simples ato de percepção.
(...)
Em primeiro lugar, podemos falar de uma antropologia natural da TAZ. A família nuclear é a unidade base da sociedade de consenso, mas não da TAZ ('Famílias! Os avaros do amor! Como eu as odeio!' - Gide) A família nuclear, com suas consequentes 'dores edipianas', parece ter sido uma invenção neolítica, uma resposta à 'revolução agrícola' com sua escassez e hierarquia impostas. O modelo paleolítico é mais primário e mais radical: o bando. O típico bando nômade ou semi-nômade de caçadores/coletores é formado por cerca de cinquenta pessoas. Em sociedades tribais mais populosas, a estrutura de bando é mantida por clãs dentro da tribo, ou por confrarias como sociedades secretas ou iniciáticas, sociedades de caça ou de guerra, associações do gênero, as 'repúblicas de crianças' e por aí adiante. Se a família nuclear é gerada pela escassez (e resulta em avareza), o bando é gerado pela abundância (e produz prodigalidade). A família é fechada, geneticamente, pela posse masculina sobre as mulheres e crianças, pela totalidade hierárquica da sociedade agrícola/industrial. Por outro lado, o bando é aberto - não para todos, é claro, mas para um grupo que divide afinidades, os iniciados que juram sobre um laço de amor. O bando não pertence a uma hierarquia maior, ele é parte de um padrão horizontalizado de costumes, parentescos, contratos e alianças, afinidades espirituais, etc.
Muitas forças estão trabalhando - de forma invisível - para dissolver a família nuclear e resgatar o bando em nossa própria sociedade da Simulação pós-Espetacular. Rupturas na estrutura do trabalho refletem a 'estabilidade' estilhaçada da unidade-lar e da unidade-família. Hoje em dia, o 'bando' de alguém inclui amigos, ex-esposos e amantes, pessoas conhecidas em diferentes empregos e encontros, grupos de afinidade, redes de pessoas com interesses específicos, listas de discussão, etc. Cada vez mais fica evidente que a família nuclear se torna uma armadilha, um ralo cultural, uma secreta implosão neurótica de átomos rompidos. E a contra-estratégia óbvia emerge de forma espontânea na quase inconsciente redescoberta da possibilidade - mais arcaica e, no entanto, mais pós-industrial - do bando.
(...)"
TAZ - Hakim Bey
terça-feira, 24 de julho de 2007
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