Há exatamente 3 horas, terminei de ler "A Cura de Schopenhauer".
Como introdução ao pensamento de Schopenhauer é excelente, e como simples leitura, também.
A impressão que eu tive de Schopenhauer ao ler este livro, é de um sujeito extremamente amargo e amargurado, que encara a vida sempre pelo aspecto mais negativo. Ele não dança, não se dá esse direito. Ele se considerava uma espécie à parte, quase um não humano.
Por mais irônico que possa parecer, foi acometido pelo desejo mais instintivo e primitivo de todos: o sexo.
Pelo clichê, Schopenhauer é um sujeito extremamente pessimista. Eu prefiro vê-lo por outro prisma. O de que ele era um cara extremamente frágil, incapaz de lidar com outras pessoas, e por medo de se ferir, se isolou. Talvez ele tenha se isolado por se achar genial demais.
A maior parte do livro se passa numa terapia de grupo.
Philip, um dos personagens, endeusa Schopenhauer, e seu comportamento é bastante parecido com o do filósofo. Introvertido, recluso, anti-social, Philip parafraseia Schopenhauer praticamente o tempo todo. Ele diz que foi curado da compulsão sexual por Schopenhauer.
Philip vai se tornando menos deus, e mais humano (ou bípede), durante a história, daí o nome do livro.
Durante uma sessão da terapia de grupo, um dos personagens diz a Philip: "Schopenhauer te curou, agora você vai ter que se curar de Schopenhauer."
O enredo provavelmente se utiliza de vários arquétipos implicitamente, mas usa duas ou três vezes explicitamente.
A seguir, os trechos que eu considerei mais interessantes.
"Se olharmos a vida em seus pequenos detalhes, tudo parece bem ridículo. É como uma gota d'água vista num microscópio, uma só gota cheia de protozoários. Achamos muita graça como eles se agitam e lutam tanto entre si. Aqui, no curto período da vida humana, essa atividade febril produz um efeito cômico."
"Num espaço infinito, inúmeras esferas luminosas em torno das quais rodam dezenas de outras menores, quentes no centro e cobertas com uma casca dura e fria onde uma névoa bolorenta originou a vida e os seres conhecidos. Esta é a realidade, o mundo."
"Enantiodromia é um conceito introduzido por Jung no qual a superabundância de qualquer 'força' invariavelmente produz o oposto do que é expectativado. É de certo modo equivalente ao princípio de estabilidade no mundo natural, onde qualquer extremo vem a ser incompatível com a idéia de equlíbrio, tal como esse conceito é entendido."
Fonte: Wikipedia
"Schopenhauer disse que os bípedes - termo dele - precisam se juntar em volta do fogo para se aquecer. Mas avisou do perigo de se chamuscarem por ficarem muito perto do fogo. Ele gostava dos porcos-espinhos, que se encostam para se aquecerem, mas usam os espinhos para manter uma distância. Schopenhauer valorizava muito seu isolamento, dependia apenas de si mesmo para ser feliz. Nesse ponto, não estava sozinho, outros grandes homens, como Montaigne, por exemplo, concordavam com essa idéia"
"Kierkegaard dizia que algumas pessoas tem duplo desespero, isto é, estão desesperadas, mas nem sabem. Você deve estar nesse desespero duplo. Quero dizer o seguinte: grande parte do sofrimento de uma pessoa vem por sentir desejo, realizá-lo, ter um instante de saciedade que logo se transforma em tédio e, por sua vez, é interrompido pelo surgimento de outro desejo. Schopenhauer achava que era essa a condição humana universal: desejar, saciar-se, entediar-se e desejar outra vez."
"Os grupos de terapia precisam de tempo para alcançar estabilidade e segurança. Muitas vezes, um grupo novo rejeita quem não consegue (por falta de motivação ou capacidade) se envolver, isto é, interagir com os outros e analisar essa interação. Pode haver então semanas de conflitos difíceis, com os integrantes competindo por uma posição de poder, atenção e influência, mas, quando ganham confiança, a possibilidade de cura aumenta. Scott, um colega de Julius, uma vez comparou um grupo de terapia com uma ponte construída numa batalha. Na primeira fase da construção há muitas vítimas (isto é, gente que larga o grupo), mas depois que a ponte fica pronta, conduz muitos ( as pessoas que estavam antes e todos os que chegaram depois) para um lugar melhor."
"Os escritos de Schopenhauer têm muita ligação com a psicanálise, embora ela ainda não existisse na época. Sua maior obra começa com uma crítica e um adendo a Kant, que havia revolucionado a filosofia com a conclusão de que nós fazemos parte, em vez de percebermos a realidade. Kant afirmou que todos os nossos sentidos são filtrados pelo sistema nervoso, que nos fornece um retrato do que chamamos realidade. Na verdade, essa realidade não passa de uma quimera, uma ficção que surge dos conceitos e catalogações feitos pela mente. Conceitos também são a causa e o efeito, sequência, quantidade, espaço e tempo; são construções e não entidades, isto é, coisas ou fatos que possam existir lá, na natureza.
Além disso, não podemos ver uma versão do que está lá, não temos como saber o que está realmente lá, ou seja, o que existe antes do nosso processo perceptivo e conceitual. Essa primeira entidade, que em alemão Kant chama de ding an sich (a coisa em si), está e precisa estar para sempre desconhecida por nós.
Embora Schopenhauer concorde que não podemos conhecer a coisa em si, acredita que podemos chegar mais perto dela do que acha Kant. E que Kant menosprezou uma grande fonte de informação do mundo perceptível (o mundo fenomenal): nosso próprio corpo! O corpo é um objeto material. Existe no tempo e no espaço. E nós temos um enorme e rico conhecimento do corpo que não vem através da percepção e da conceituação, mas de dentro, dos sentimentos.
Adquirimos um conhecimento através do corpo que não podemos conceituar e comunicar porque a maior parte da nossa vida interior é desconhecida para nós. A vida interior é reprimida e não pode ser conscientizada porque conhecer nossa natureza mais profunda (nossa crueldade, medo, inveja, desejo sexual, agressividade, egoísmo) seria um peso maior do que poderíamos aguentar.
O tema parece conhecido? Lembra aquela velha teoria freudiana do inconsciente, do processo primitivo, do id, repressão, auto-ilusão?
Não é essa a base da psicanálise? Lembre-se de que o principal livro de Schopenhauer foi publicado quarenta anos antes do nascimento de Freud. Em meados do século XIX, quando Freud (e Nietzsche) ainda estavam no primário, Schopenhauer era o filósofo alemão mais lido.
Como compreendemos essas forças inconscientes? Como fazemos com que elas se comuniquem entre si? Embora não possam ser conceituadas, podem ser sentidas e, segundo Schopenhauer, propagadas diretamente, sem palavras, através das artes. Por isso ele deu mais atenção às artes (principalmente à música) do que qualquer outro filósofo.
E o sexo? Ele não tinha dúvidas da importância do sexo no comportamento. Nesse ponto, também, Schopenhauer foi um ousado pioneiro, pois nenhum filósofo antes teve a idéia (ou a coragem) de escrever sobre a importância fundamental do sexo para nossa vida interior.
E a religião? Schopenhauer foi o primeiro grande filósofo a construir seu pensamento com base no ateísmo. Ele negava o sobrenatural com clareza e veemência, afirmando que vivemos apenas no tempo e no espaço e que todo imaterial é falso e inútil. Filósofos como Hobbes, Hume e até Kant demonstraram tendências agnósticas, mas não ousaram afirmar sua descrença. No mínimo, porque viviam do salário das empresas públicas e universidades aonde trabalhavam e, portanto, eram proibidos de expressar qualquer sentimento anti-religioso. Schopenhauer jamais precisou ser empregado de nada nem ninguém, tendo assim liberdade para escrever o que quisesse. Exatamente pelo mesmo motivo, um século e meio depois, Spinoza recusou convites para assumir altos cargos em universidades, continuando a trabalhar como polidor de lentes.
Qual a conclusão de Schopenhauer sobre o conhecimento do corpo? Foi que nós e toda a natureza temos uma força prima incansável, insaciável que ele chamou à vontade. Escreveu: 'Para todo lugar que olhamos, vemos um esforço que representa o cerne de tudo. E em que consiste o sofrimento? É a luta para vencer o obstáculo que fica entre a vontade e a meta. O que é a felicidade? É atingir a meta.'
Nós queremos, queremos e queremos. Para cada desejo consciente há dez aguardando no inconsciente. A vontade não cessa de nos dirigir, pois assim que um desejo é alcançado, há outro e mais outro pela vida afora.
Às vezes, Schopenhauer lembra os mitos gregos de Ixião na roda, ou o de Tântalo, para explicar o dilema da existência humana. Ixião foi o rei que traiu Júpiter, sendo por isso condenado a ficar preso para sempre numa roda de fogo que girava no ar. Tântalo ousou desafiar Júpiter e, por seu orgulho, foi obrigado a sofrer tentações, mas jamais se satisfazer. Schopenhauer acreditava que a vida é uma roda de carência seguida de saciedade. Ficamos satisfeitos quando saciados? Por pouco tempo. Quase em seguida somos invadidos pelo tédio e obrigados a agir para escapar do horror do tédio.
(...)
Por que o tédio é ruim? Por que lutamos para afastá-lo? Porque é um estado do qual não conseguimos nos livrar e que vem logo mostrar verdades subjacentes e desagradáveis sobre a vida: a nossa insignificância, a falta de sentido da vida, nossa inexorável caminhada rumo à velhice e à morte.
Portanto, o que é a vida senão um ciclo infinito de querer, satisfazer, entediar-se e depois querer de novo? Essa sequencia vale para todas as formas de vida? É pior para os humanos, diz Schopenhauer, pois à medida que a inteligência aumenta, cresce também a intensidade do sofrimento.
Existe alguém feliz? É possível ser feliz algum dia? Schopenhauer acredita que não.
Em primeiro lugar, o homem nunca é feliz, porém passa a vida lutando por algo, pensando que vai fazê-lo feliz, não consegue, e, quando consegue, se desaponta: é um náufrago e chega ao porto sem mastros nem cordâmes. Portanto, não se trata de ser feliz ou infeliz, pois a vida não é senão o momento presente, que está sempre sumindo e, finalmente, se acaba.
A vida, que consiste numa descida trágica e inevitável, não só é brutal, mas inteiramente excêntrica.
Somos como cordeiros brincando no campo, enquanto o açougueiro nos olha e escolhe um, depois outro, pois quando jovens não sabemos que desgraça nos reserva o destino. Doença, perseguição, empobrecimento, mutilação, perda da visão, loucura e morte.
Será que as conclusões pessimistas de Schopenhauer sobre a condição humana são tão insuportáveis que ele acabou mergulhando na depressão? Ou foi o contrário: era tão infeliz que acabou concluindo que a vida é um fato triste que nem deveria ter ocorrido? Ciente desse enigma, ele nos lembrou (e a si mesmo) que a emoção tem o poder de toldar e falsificar o conhecimento: o mundo assume um aspecto sorridente quando temos motivo para nos alegrar e um ar sombrio quando pesa sobre nós a tristeza."
"As pessoas têm medo dos doentes, pois não querem encarar a morte que existe dentro de cada um de nós, não é? - perguntou Philip."
"Alguns não conseguem se libertar dos seus próprios grilhões, mas conseguem libertar os amigos. -Nietzsche"
"Devemos encarar com tolerância toda loucura, fracasso e vício dos outros, sabendo que encaramos apenas nossa própria loucura, fracasso e vício. Pois eles são os fracassos da humanidade à qual também pertencemos e assim temos os mesmos fracassos em nós. Não devemos nos indignar com os outros por esses vícios apenas por não aparecerem em nós naquele momento."
sexta-feira, 27 de julho de 2007
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6 comentários:
ÓTIMA SINÓPSE
"ding an sich (a coisa em si), está e precisa estar para sempre desconhecida por nós."
Pode parecer estranho, mas uma vez estive à beira da loucura, e nesse instante tive uma espécie de "viagem, como uma revelação... naquele momento eu vi as coisas como realmente são, como que vivêssemos (vivemos[?]) em vão.
Em seguida entrei em uma intensa depressão, na qual nunca consegui me libertar completamente. Passei a buscar explicações para o que vi, e o que tenho descoberto tem somente intensificado o medo (da morte[?], da insignificância da vida[?])... através da psicanálise tenho obtido respostas claras de que, o que eu vi naquele momento não foi uma simples "viagem" (à beira da perda da consciência), mas sim uma visão de A VIDA COMO É EM SI (..."a coisa em si")!
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
"Nietzsche" da coleção "Os Pensadores", da Abril Cultural). Ele mesmo considerava como seu pensamento mais profundo e amedrontador, que lhe veio à mente durante uma caminhada, ao contemplar uma formação rochosa.
Viu? :s
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